quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um sonho enigmático


Adilson Marques - asamar_sc@hotmail.com

Posso dizer sem medo de errar que minha principal atividade de lazer é sonhar. Nada que exista na Terra me traz mais satisfação do que vivenciar um drama, uma comédia, um romance e descobrir que tudo foi um sonho e que todo aquele cenário e pessoas só existiam dentro de minha própria mente.  O sonho é um dos fenômenos mais fascinantes e que me intriga profundamente. E acredito que eles possuem uma dimensão espiritual (ou seja, extra cerebral) e alguns são mesmo proféticos.
Mas um dos sonhos que tive nesta noite deve ter sido influenciado por uma conversa que tive com uma amiga, no final do ano passado. Eu estava perto do mercado municipal de São Carlos quando uma amiga candomblecista me viu e veio falar comigo. Contou-me que a prefeitura queria fazer um evento sobre as religiões de matriz afro-brasileira e que, naquele final de semana teria uma reunião. Eu disse a ela que estaria em Uberlândia, em um evento sobre Apometria, mas que gostaria de participar das próximas. Desde então, não a encontrei mais e não sei em que pé anda o tal evento.
O novo ano começou e hoje, dia 14 de janeiro, sonhei que estava em uma reunião. Uma mulher que desconheço falava de forma exaltada. Lembrava muito uma militante revoltada. O seu discurso inflamado me incomodava, mas eu ouvia atentamente o que ela dizia. Lembro-me de três frases muito marcantes em seu discurso. A primeira dizia: “a umbanda está se tornando uma religião de classe média branca...” e a segunda foi a seguinte: “os negros estão abandonando suas raízes e migrando para as religiões evangélicas”.
Eu ouvia o que ela falava e pensava: mas a  Umbanda foi criada por um homem branco e de classe média, o Zélio de Morais. E se alguém visitar um terreiro de umbanda em Blumenau/SC, por exemplo, vai ver aquele monte de médiuns branquinhos, loiros e de olhos azuis “girando a gira”. Além disso, todos devem ter o direito de seguir a religião que desejar e até de mudar, quando quiserem, por isso qual o problema de um negro ser evangélico?
Mas o que me despertou daquele sonho foi a terceira frase. A mulher disse assim: “temos que garantir que pelo menos 30 % dos médiuns que trabalham em terreiros de umbanda sejam afro-descendentes”. Quando ela disse isso, não aguentei e comecei a rir. De tanto rir, eu acordei e tomei consciência que se tratava de um sonho. Fiquei das 4 às 6 horas sem conseguir dormir e aproveitei para matutar sobre o que poderia significar tão enigmática criação onírica.
A mulher, apesar de não saber quem era, no sonho representava a prefeitura. Era alguém do poder público. Isso me pareceu "mau agouro". E por quê? Porque em 2008 e 2010 vivi experiências bem desagradáveis com pessoas ligadas à prefeitura. E como estamos entrando em 2012, imaginei o meu inconsciente me dizendo: “ano sim, ano não; lá vem confusão”.
Em 2008, fui um dos organizadores do VIII Encontro Ecumênico de Educação e Cultura para a Paz e o tema elegido foi o centenário da Umbanda. O evento seria em uma escola pública da cidade. Porém, depois de acertar tudo verbalmente, ao ver o panfleto impresso a direção da escola voltou atrás e não aceitou que o evento fosse lá, argumentando que era um evento religioso e que eu poderia ser até mandado embora da prefeitura por justa causa. Eu disse que não era um evento religioso, mas sobre cultura de paz. E seria um evento para discutir sobre uma religião brasileira que completava 100 anos, que tinha uma vida de luta e resistência, e pontos importantes de discussão, como o sacrifício de animais, em pleno século XXI, a sujeira que alguns grupos deixavam nas praias e cachoeiras, além do risco de incêndio em matas por causa de rituais realizados de forma perigosa. 
Enfim, tentei explicar que não se tratava de um evento para se fazer proselitismo religioso. Porém, para se evitar mais confusões, resolvi achar outro lugar para o evento e risquei o nome da escola do panfleto.
E, em 2010, uma nova confusão aconteceu. Desta vez foi o seguinte. A prefeitura organizou um evento chamado “quão negros somos!” e eu inscrevi um painel sobre a minha pesquisa de História oral com um preto-velho. O painel foi aceito e eu estava lá para apresentá-lo. Eu estava feliz, porque essa pesquisa, desde o seu início em 2005, já tinha me dado muita dor de cabeça. Primeiro, porque nenhuma Instituição de Ensino Superior que procurei se interessou em me aceitar como aluno de pós-doutorado para fazer uma pesquisa de história oral com um suposto espírito. Provavelmente, me achavam um doido deslumbrado por querer fazer um estudo de história oral com um provável "morto".
A única que aceitou a pesquisa acabou me boicotando, não enviando para a CAPES os documentos solicitados e a bolsa de estudo acabou não sendo aprovada. Mesmo não conseguindo fazer a pesquisa em um ambiente acadêmico, heroicamente consegui terminá-la no ano de 2010 e, por alguma razão, ela foi aprovada para ser apresentada no evento acima, voltado para ensinar a história e a cultura africana e afro-brasileira. 
Além deste evento, na semana seguinte estava programada uma palestra sobre mediunismo afro-brasileiro no Centro de Cultura Afro-brasileira, um espaço cultural criado também pela prefeitura de São Carlos. Ou seja, eu estava em um evento da prefeitura e, na semana seguinte, faria uma palestra em outro espaço da prefeitura. Porém, ingenuamente, fui mostrar o panfleto deste outro evento para a pessoa que apresentava o "quão negros somos"  e pedi permissão para divulgar a palestra. Ela me proibiu e novamente o argumento seria a tal "laicidade" da prefeitura. Em outras palavras, em um evento eu tinha autorização para apresentar um painel sobre história oral com um preto-velho, mas não poderia divulgar uma palestra similar que aconteceria em um centro cultural criado e mantido também pela prefeitura. Ou seja, o destino me colocou no meio de uma situação kafkiana, daquelas que nenhuma lógica era capaz de explicar, desestruturando todos os meus chakras.
E o sonho desta noite me fez sentir calafrio depois que acordei. O que poderá acontecer em 2012? Quem era aquela mulher revoltada que, representando o poder público, desejava criar uma cota para médiuns afro-descendentes? Na hora me lembrei de meus amigos umbandistas de Blumenau. Como eles iriam se virar, ou melhor, se “girar”?   
Enfim, de tanto matutar, consegui imaginar três interpretações para o sonho:
1 – se preparar para enfrentar uma nova confusão com alguém da prefeitura 2012;
2 – exorcização plena das "experiências traumáticas" de 2008 e 2010, se libertando de toda aquela energia negativa, para começar 2012 renovado;
3 – uma brincadeira muito criativa de algum espírito zombeteiro, que me fez rir muito da idéia de se criar cotas para médiuns afro-descendentes e “salvar” a Umbanda do seu “embranquecimento”.

São Carlos, 14 de Janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Misticismo não é superstição


Adilson Marques - asamar_sc@hotmail.com

É muito comum encontrar algumas reflexões, sobretudo, nos meios religiosos, que querem combater as superstições que permeiam as relações com o sagrado, tratando-as como "misticismos". A expressão misticismo, cuja origem é grega, remete a experiência direta ou intuitiva com Deus ou uma "realidade superior". Não há nada de supersticioso no misticismo. Parte considerável dos ensinamentos milenares do Oriente foram obtidos através da experiência mística, seja a vidência, a clarividência, a "projeção astral" etc. Sem experiência não há misticismo. O empirismo é a sua base.
Por outro lado, a superstição é uma crença sem base racional e sem fundamento na experiência. Portanto, oposta ao misticismo. Obviamente que pode ocorrer pontos de contato. Por exemplo, uma pessoa supersticiosa pode acreditar que se alguém pega uma agulha e fica perfurando a foto de um desafeto, este vai sofrer dores pelo corpo ou adoecer. Porém, o místico, que conhece o poder da mente, que sabe manipular sua força mental e espiritual, sabe que a intenção de prejudicar alguém é que move uma determinada energia negativa até a pessoa mentalizada, que pode estar receptiva ou não. Porém, esse conhecimento não é supersticioso, mas construido através de uma prática, da experiência. Assim, enquanto o supersticioso se apega, quase sempre ao elemento visivel, o místico sabe que a força que move esses fenômenos é invisível e, além disso, sabe das consequências de nossas atitudes. E, novamente, não porque alguém disse, mas pela própria experiência.
Podemos dizer também que pensamentos sobre sorte ou azar estão no campo da superstição. O místico conhece e respeita as Leis cósmicas que regem o Universo, entre elas, a lei do Carma, que, como afirma Buda, é uma lei natural, independente de julgamento moral. Ela não existe para castigar ou punir quem é "malvado".
Enfim, podemos dizer que o espiritismo, o budismo, o taoísmo etc. são conhecimentos místicos, construidos a partir da experiência, seja direta com a dimensão invisível, o que hoje em dia é chamado de animismo e é valorizado, por exemplo, por movimentos como o Rosa Cruz; ou de forma indireta, contatando os seres que habitam essa dimensão invisível, como fazem os espíritas e os umbandistas através do mediunismo. 
Nesse sentido, as religiões podem conter elementos que remetem ao misticismo e também a superstição. Para aqueles mais iconoclastas, a luta contra a superstição precisa ser feita com mais cautela, pois corre-se o risco, como se diz na sabedoria popular, de jogar o bebê junto com a água suja do banho.
São Carlos, 05 de janeiro de 2012
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a carta sobre ensino religioso assinada em Florianópolis


caros amigos e amigas,
O Projeto Homospiritualis reproduz abaixo a carta assinada recentemente em Florianópolis pelas 3 principais instituições que discutem o tema ensino religioso escolar, hoje em dia:

O Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (FONAPER), a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE) e a Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER), preocupados com o processo de implementação e consolidação do Ensino Religioso nas escolas públicas, vêm, através desta Carta Aberta à Sociedade Brasileira, tornar público seus posicionamentos a fim de esclarecer, direcionar e aprofundar o debate sobre o papel desta área do conhecimento e componente curricular na formação básica do cidadão.
No que se refere aos aspectos legais, destacamos que o Ensino Religioso é:
I - disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental (Cf. § 1º do art. 210 da Constituição Federal);
II - parte integrante da formação básica do cidadão, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo, sendo que os conteúdos e as normas para a habilitação/admissão de seus professores devem ser definidos e regulamentados pelos sistemas de ensino, que poderão ouvir entidade civil constituída pelas diferentes denominações religiosas (Cf. Lei nº 9.475/97, que altera o Art. 33 da LDB nº 9.394/96);
III - componente curricular situado no âmbito da educação sistemática e formal, articulado com os princípios e fins da educação nacional, devendo contribuir para o pleno desenvolvimento do educando e seu preparo para o exercício da cidadania (Cf. Art. 2º da LDB n° 9.394/96), promovendo a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores, que fortaleçam os vínculos familiares, os laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social (cf. Art. 32 da LDB n° 9.394/96);
IV - uma das áreas de conhecimento a integrar a base nacional comum da Educação Básica, a qual é constituída por conhecimentos, saberes e valores produzidos culturalmente, compreendidos como essenciais ao desenvolvimento das habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania (Cf. art. 14 da Resolução CNE/CEB nº 4, de 13 de julho de 2010, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica);
V - componente curricular e área de conhecimento obrigatória do Ensino Fundamental, de matrícula facultativa ao aluno, assegurado o respeito à diversidade cultural e religiosa do Brasil e vedadas quaisquer formas de proselitismo (Cf. Art. 15 da Resolução CNE/CEB n° 7/2010, que Fixa Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de 9 (nove) anos).
Enquanto componente curricular, o Ensino Religioso deve atender à função social da escola, em consonância com a legislação do Estado Brasileiro, proporcionando o conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, a partir de uma abordagem pedagógica que estuda, pesquisa e reconhece a diversidade cultural-religiosa brasileira, vedadas quaisquer formas de proselitismos (Cf. Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso (FONAPER, 1997)).
Assim, longe de se embasar no ensino de uma religião ou das religiões na escola, a manutenção do Ensino Religioso em um Estado laico se justifica pela necessidade de formar cidadãos críticos e responsáveis, capazes de discernir a dinâmica dos fenômenos religiosos, que permeiam a vida em âmbito pessoal, local, nacional e mundial. As diferentes crenças, grupos, tradições e expressões religiosas, bem como a ausência delas, são aspectos da realidade que devem ser socializados e abordados como dados socioculturais, capazes de contribuir na interpretação e na fundamentação das ações humanas.
Desde a promulgação da Lei n° 9.475/97, muitas ações foram realizadas, em âmbito nacional, para a efetivação do Ensino Religioso, como componente curricular, dentre as quais se destacam:
I - a sua adequada implementação por centenas de sistemas estaduais e municipais de ensino, inclusive com a publicação de propostas e diretrizes curriculares e contratação de professores habilitados em Ensino Religioso através de concursos públicos;
II - a promoção constante de eventos científicos, fóruns, encontros e debates, abordando a natureza epistemológica e pedagógica do Ensino Religioso, dentre os quais merecem destaque as 11 edições do Seminário Nacional para a Formação de Professores em Ensino Religioso (SEFOPER) e as 06 versões do Congresso Nacional de Ensino Religioso (CONERE) promovidos pelo FONAPER, em parceria com diferentes instituições de ensino superior que oferecem cursos na área de Ciência(s) da(s) Religião(ões) ou afins, em níveis de graduação e de pós-graduação;
III - as diferentes iniciativas de formação inicial e continuada dos professores de Ensino Religioso, oferecidos por inúmeros sistemas de ensino e instituições de ensino superior, inclusive em nível de licenciatura, como ocorre nos Estados do Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pará, Rio Grande do Norte e Santa Catarina, dentre outros;
IV - o significativo crescimento da produção científica de ordem epistemológica e pedagógica, incluindo a publicação de obras, revistas, cadernos, documentos e páginas eletrônicas que veiculam artigos, trabalhos e acontecimentos relacionados com o Ensino Religioso;
V - a criação de um Grupo de Trabalho (GT) de Religião e Educação na Associação Nacional de Pós-Graduação de Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE) e na Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER), com massiva participação de docentes-pesquisadores na socialização de pesquisas e de práticas educativas nesta área de conhecimento;
VI - a inclusão de 05 ementas no documento final da Conferência Nacional de Educação (CONAE), o qual subsidia a elaboração do novo Plano Nacional de Educação (PNE) para a década de 2011-2020, determinando que: a) a diversidade religiosa seja inserida, no Programa Nacional do Livro Didático, de maneira explícita; b) se desenvolva e amplie-se programas de formação inicial e continuada sobre diversidade cultural-religiosa; c) os estudos da diversidade cultural-religiosa sejam inseridos no currículo das licenciaturas; d) os editais voltados para pesquisa sobre a educação da diversidade cultural-religiosa sejam ampliados, dotando-os de financiamento; e e) o ensino público se paute na laicidade, sem privilegiar elemento desta ou daquela tradição e/ou movimento religioso.
Entretanto, diante de inúmeros outros fatos e impasses que dificultam a consolidação do Ensino Religioso no país, defendemos que:
I - o Ministério da Educação (MEC) publique diretrizes curriculares nacionais para o Ensino Religioso, a fim de orientar os sistemas de ensino na elaboração de suas propostas pedagógicas em consonância com os pressupostos legais e curriculares em vigor na atualidade;
II – o Ministério da Educação (MEC), por meio do Conselho Nacional de Educação (CNE), emita diretrizes curriculares nacionais para a formação inicial dos professores de Ensino Religioso, em curso de licenciatura, de graduação plena, nos termos do art. 62 da LDB nº 9.394/96;
III – o Supremo Tribunal Federal (STF) aceite a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), proposta pela Procuradoria Geral da República (PGR), para assentar que o Ensino Religioso em escolas públicas só pode ser de natureza não-confessional, declarando a inconstitucionalidade do artigo 11, do Decreto n° 7.107/2010, que aprova o Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, o qual prevê que o Ensino Religioso seja “católico e de outras confissões religiosas”;
IV - o Ministério da Educação (MEC), por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, fomente a oferta dos cursos de formação inicial para professores de Ensino Religioso no âmbito do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica/PARFOR;
V - o Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação/CONSED e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação/UNDIME reconheçam o Ensino Religioso como área do conhecimento e promovam sua oferta em todas as escolas de ensino fundamental das redes públicas de ensino do Brasil, nos termos da Lei n° 9.475/1997;
VI - o Congresso Nacional incorpore no novo Plano Nacional de Educação (PNE) estratégia que garanta a promoção do respeito à diversidade religiosa nas escolas, respeitando-se o princípio da laicidade do Estado, com a proibição de práticas de proselitismo religioso e de Ensino Religioso confessional.
Isto posto, reafirmamos que é fundamental manter o Ensino Religioso presente no cenário educacional, a fim de continuar assegurando aos educandos das escolas públicas o acesso ao conhecimento religioso produzido pela humanidade, contribuindo para conhecimento e respeito da diversidade religiosa do povo brasileiro.
Para tanto, convidamos a todos os envolvidos na sociedade a participarem deste amplo debate, aliando-se às ações e proposições que buscam consolidar o Ensino Religioso como direito do cidadão, em prol da promoção da liberdade religiosa e de uma sociedade profundamente democrática.
 Florianópolis, 14 de outubro de 2011.

Estado laico, espiritualismo transreligioso

Adilson Marques - asamar_sc@hotmail.com

Um Estado laico tem por objetivo a garantia de liberdade religiosa. Mesmo assim, há os que confundem o termo laico com ateísmo e, em casos extremos, com o laicismo, um movimento de perseguição às religiões, como aconteceu na China, durante a implementação do regime comunista, quando inúmeros templos budistas, por exemplo, foram destruídos.
Em um Estado laico, o poder público tem o dever de garantir todas as formas de manifestações religiosas, mas não tem como interferir na sociedade afirmando se há Deus, espíritos, vida após a morte, reencarnação etc. Estes termos são do campo teológico, filosófico e religioso. Alguns até pretendem levar essa discussão para o campo científico, estudando através do método cartesiano, recheado de estatísticas, fenômenos místicos ou subjetivos como a Experiência de Quase Morte (EQM), a "projeção astral", a provável comunicação com os mortos etc.
Porém, sempre que se apresenta uma concepção de Deus, mesmo que seja aquela adotada pelo espiritismo (Deus é a inteligência suprema e a causa primária de todas as coisas), estamos diante de uma reflexão religiosa e não laica. O Estado laico tem o dever de aceitar a organização sócio-religiosa de quem acreditar nessa concepção de Deus, assim como a organização de quem defende outra concepção e de quem nem acredita em Deus.
Nesse sentido, é curioso notar a existência de grupos religiosos que se dizem laicos. No caso dos espíritas, por exemplo, essa suposta laicidade é baseada nas concepções religiosas de Kardec, ou seja, que parte do pressuposto que existe Deus, espíritos, reencarnação etc. Assim, é um contra-senso afirmar que um movimento, cuja base teórica é recheada de termos religiosos, seja ao mesmo tempo laico, uma vez que este adjetivo tem uma conotação muito particular: a não-interferência da religião organizada na vida pública das sociedades contemporâneas. Não há outro sentido para o adjetivo laico que não esteja relacionado à relação Religião-Estado.
Por outro lado, é possível pensar o tema espiritualidade para além das religiões, ou seja, em um âmbito transreligioso. Neste âmbito, é possível estar além do sectarismo e dos rituais, algo muito comum nos movimentos religiosos, mas nada disso diz respeito a laicidade do Estado.
Alías o espiritismo pode e deve se valer do Estado laico para se defender, por exemplo, dos constantes ataques de membros dos grupos neo-pentecostais, pois entre os dois movimentos não há acordo, apesar de ambos acreditarem em intervenções do plano invisível sobre o visível. Porém,  enquanto os espíritas acreditam que elas são realizadas por espíritos de "pessoas mortas", os neo-pentecostais afirmam que são manifestações do "demônio". Mas, se a discussão terminasse aqui, não haveria problema. Infelizmente, o movimento neo-pentecostal é "etnocidário" e defende o combate ao "demônio", gerando, com muita frequência,  hostilidade aos espíritas e aos demais grupos religiosos que, em tese, conversam "com demônios", como é o caso dos umbandistas. E essa hostlidade é praticada de diferentes formas, chegando, em muitos casos, à agressão física.
Enfim, qualquer que seja o grupo espiritualista, a partir do momento que ele tem como pressuposto a existência de Deus, e, no caso do espiritismo, uma concepção monoteista de Deus, já negligenciou os ateus, os agnósticos e os politeístas, por exemplo. Assim, não existe "espiritismo laico" ou qualquer forma de espiritulismo que seja laico. Existe sim,  formas sadia de espiritualismo transreligioso, algo que é salutar e necessário para arejar o religiosismo que dominou o movimento espírita, sobretudo no Brasil, e outros movimentos espiritualistas, mas estes nada tem de laico, pelo menos não no sentido iluminista em que o termo se popularizou e até hoje é utilizado. O Estado tem que ser laico, para ser democrático. Mas, todo e qualquer agrupamento espiritualista pode, e é saudável se for, transreligioso.

São Carlos, 06 de janeiro de 2012

Provável caso de reencarnação

Provável caso de reencarnação

Adilson Marques - asamar_sc@hotmail.com

Pesquisando o tema mediunidade desde 2001, tenho me deparado, frequentemente, com hipotéticas revelações de minhas supostas vidas passadas. A primeira que recebi foi em 2001, através de um espírito que se identifica como dr. Felipe e que se manifesta através de um médium são-carlense. Segundo ele, eu teria vivido no século XVIII como Emmanuel Kant. E uma informação curiosa que ele passou foi que Kant havia sido homossexual. Verdade ou não, dediquei-me a estudar a vida e a obra de Kant de 2001 a 2004, descobrindo que ele escreveu um livro muito interessante sobre o vidente Emanuel Swedenborg(1). E sobre a suposta homossexualidade de Kant também não achei nenhuma referência, mas no livro "A vida sexual de Emannuel Kant", de Jean-Baptiste Botul, o autor chega a levantar essa hipótese, com base em alguns fatos da vida do filósofo, mas parece acreditar que Kant, provavelmente, teria morrido virgem. Verdade ou não, se não fosse pelo espírito que se identifica como dr. Felipe não teria tido interesse em estudar os áridos livros desse filósofo e nem sobre sua vida. Se for verdade, acho que "evolui", pois Kant parece ter sido um sujeito eurocêntrico e machista, que manifestava muito preconceito em relação aos orientais e também aos negros e às mulheres, o que aparece com evidência em seus estudos sobre Estética.
E outras possíveis encarnações, ou reveladas por supostos espíritos ou por médiuns que se dizem videntes foram: como índio da etnia Kayngang, no Brasil; como monge budista na China; como um escritor contemporâneo de Mahatma Gandhi, na Índia; como soldado romano; como camponesa na África Central etc. Porém, até agora, a única "revelação" que parece ter algum fundamento é a de uma provável encarnação como Bispo da Igreja católica. E digo isso pelo fato de duas pessoas que não se conhecem, uma em Natal/RN e outra em São Carlos/SP, terem manifestado informações muito parecidas, em dois contextos distintos, os quais descrevo abaixo. 
Alguns anos atrás estive em Natal/RN, e vivenciei um acontecimento singular. Eu estava com muita dor de cabeça e fui tomar um "passe" no trabalho mediúnico do Grupo Espiritualista Auta de Luz. Durante o "passe" , uma das médiuns acessou a minha suposta vida passada como Bispo da Igreja Católica e começou a descrever alguns fatos daquela provável existência. Segundo a médium, eu abusava sexualmente das freiras que moravam em um convento e muitas engravidavam. Porém, quando as crianças nasciam, eram retiradas das mães e levadas para as famosas "rodas dos enjeitados". A dor de cabeça que eu sentia, teria ligação com essa suposta encarnação, pois, em tese, eu ainda teria muitos "inimigos" ou "cobradores" espirituais me perseguindo.
E, ao voltar para São Carlos/SP, não se passou muito tempo e uma mulher ansiosa por fazer uma regressão de memória me procurou. Apesar de apenas conduzir a técnica em casos especiais, senti vontade de atendê-la e combinamos algumas sessões(2). Logo na primeira, essa mulher começou a se ver como freira e descreveu fatos similares àqueles narrados pela médium de Natal/RN. Eu fui ficando apreensivo, mas achei, em um primeiro momento, que era apenas coincidência. Por fim, na quinta e última sessão que fizemos, ela falou que eu era o Bispo, que o convento em que vivia era na França, no século XVII, e que o nome do Bispo era Gaston.
Com essa informação, e graças ao Google, localizei um Bispo francês com esse nome e no século XVII. Mostrei a ela uma ilustração do possível Bispo, que se chamava Jean Baptiste Louis Gaston de Noailles (1669-1720). Ela afirmou que era o bispo que via na regressão de memória.
Por e-mail, entrei em contato com a Diocese de Châlons, em meados do ano passado, mas não tive até o momento nenhuma resposta. Em minha mensagem perguntava se havia alguma biografia sobre o Bispo. Minha idéia era comparar o que pode existir de informações sobre ele com as informações que surgiram espontaneamente por vias mediúnicas e pela regressão de memória. Obviamente que, se o Bispo em questão foi o protagonista dos "escândalos" narrados pelas duas, é provável que a Igreja Católica fizesse de tudo para não permitir que na biografia oficial do Bispo tais fatos aparecessem.
Infelizmente, pelo Google, não há muita informação sobre a vida desse Bispo, apenas sobre sua mãe, a duquesa Anne Louise Boyer (1632-1697). Porém, as informações transmitidas pela médium de Natal/RN e as visões que esta outra mulher teve durante a regressão de memória vem ao encontro de uma informação mediúnica que recebi também em 2001, dizendo que o meu "carma" estava ligado à promiscuidade, que eu já havia sido um "líder religioso" e que eu seria o que "mais dívida tinha para saldar" do grupo.
Enfim, em fevereiro de 2012 estarei novamente em Natal/RN. Espero encontrar novamente a mesma médium, desta vez, sem a necessidade de uma dor de cabeça, e quem sabe receber mais algumas informações que me ajudem na revelação desse quebra-cabeça e descobrir se o Bispo Jean Baptiste Louis Gaston de Noailles foi aquele que as duas pessoas, que não se conhecem, e moram em cidades tão distantes, descreveram com tanta semelhança.

notas:
(1) Em 2004, fiz uma palestra no IV Encontro Ecumênico de Educação e Cultura para a Paz, abordando a interpretação de Kant sobre as vidências de Emanuel Swedenborg. A transcrição da palestra pode ser acessada abaixo:
http://pt.scribd.com/doc/18506655/A-Psicosofia-de-I-Kant-e-a-doutrina-espirita

(2) O depoimento dessa mulher, narrando sua experiência com a regressão de memória, pode ser acessada no livro abaixo:http://pt.scribd.com/doc/18239605/Genero-e-espiritualidade-introducao-ao-estudo-das-imagens-e-do-imaginario-do-invisivel

Evento na Universidade Federal da Paraíba

caros amigos e amigas
em Fevereiro, no dia 09, estarei apresentando uma palestra na UFPB, intitulada "Mediunidade e Imaginário":
Os temas a serem abordados serão os seguintes:

a mediunidade como fenômeno antropológico universal;
o espiritismo e a visão iluminista da mediunidade;
a umbanda, a apometria e a visão pós-moderna da mediunidade;
as estruturas antropológicas do imaginário e a mediunidade;
o imaginário diurno e o espiritismo;
o imaginário noturno e a umbanda e a apometria;
as imagens heróicas e o espiritismo;
as imagens misticas e a umbanda;
as imagens dramáticas e a apometria;
a mediunidade e seus mitos:
Apolo e Espiritismo
Dioniso e Umbanda
Hermes e Apometria

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

4 anos no ar

No dia 02 de janeiro de 2008, começamos a postar no youtube trechos dos eventos que fizeram parte dos encontros ecumênicos de educação e cultura para a paz, realizados em São Carlos/SP, de 2001 a 2010. Os vídeos mais acessados são os que deram origem a pesquisa "História oral, Imaginário e Transcendentalismo: mitocrítica dos ensinamentos do espírito pai Joaquim de Aruanda". Com este "preto-velho" foram 32 horas de entrevistas, e as questões abordaram a Umbanda, o Budismo, o Espiritismo e outros assuntos de interesse dos espiritualistas.
Alguns vídeos interessantes: